sábado, 10 de julho de 2010

ÔNIBUS LOTADO

O cotidiano urbano é repleto de desafios elegantes e ordinários para o morador da cidade. O maior invento da humanidade, a roda, foi implantada oito vezes para o advento do ônibus. O homem e a mulher tiveram que cruzar no mínimo 45 vezes para formar mais 45 seres humanos - isso se não vierem gêmeos ou mais -, para formar uma lenda moderna e cada vez mais sofisticada: o ônibus lotado. Feliz mesmo fica o dono da empresa de ônibus, que, honesto sendo, vê a sua empresa e seu bolso crescendo.

A adrenalina de um passageiro começa a subir a partir do momento que lê na fachada do ônibus o nome tão esperado do lugar para onde está indo (ou não, já que existem nomes exóticos como “D43”, “TRIÂNGULO”, “C1”, fazendo com que as pessoas de fora da cidade não saibam da onde saíram e nem pra onde vão esses veículos). Apesar da decepção do recém chegado ao ver o veículo cheio de gente, a adrenalina só se faz cada vez mais ativa. Aí perguntas complicadíssimas podem passar pela cabeça do cidadão: Como vou chegar até a roleta? Como vou pegar a minha carteira? E agora, grito?

Essas perguntas são respondidas automaticamente com a ação da pessoa. Sabe-se lá como se chegou à roleta, e muito menos como conseguiu pegar a carteira, mas o fato é que você se encontra espremido entre outro passageiro e a roleta, o pé amigo do cobrador trancando a passagem e ainda te encara com uma fome radical por ver o seu dinheiro certinho saindo de sua carteira, afinal, o troco é tudo que o cobrador não quer contar. Passado o primeiro desafio, vem o monstro. Ao olhar para o lado, você repara nas 30 pessoas que estão, junto com você, além da roleta. E o cenário não é animador.

Ônibus lotado, é o correspondente urbano a um dia acampado em uma floresta tropical e chovendo. Enfrenta-se maus odores externos e principalmente externos. Pelo menos metade dos passageiros é homem, e no mínimo um terço está... bem, digamos... com um odor desagradável, criado por bactérias, por debaixo de seus respectivos braços. Sendo um veículo de transporte público, algumas mulheres também podem oferecer esta charmosa condição. O máximo que se pode fazer sobre isso é simplesmente nada.

As pessoas que estão de pé, obviamente sofrem mais. O espertinho passa a mão no “popô” daquela loira maravilhosa que está indo assistir sua aula na universidade, você recebe um caloroso pisão no seu pé. Justamente no sapato novo que comprou hoje! Revide! Seja forte, dá uma cotovelada no cara do lado, finja que vai se segurar na barra da frente e aproveite a freada para furar o olho do ponta esquerda do time de várzea da cidade que tirou o seu das semi-finais do campeonato do bairro. Aproveita e olha com devoção o decote da mulher que está sentada na janela. Não se preocupe, ela está ocupada ao observar as pessoas dentro dos carros e tentar decifrar pela leitura labial o que estão falando.

Um momento crítico de uma viagem em um ônibus lotado é quando as pessoas descem. Sempre há um infeliz que não está perto da porta de saída e que tenta sair do meio do ônibus. O pior de tudo é que o cidadão conseguiu sair, tendo como consequências muitas reclamações e alguns palavrões. Ainda assim, é capaz de sair menos pessoas do que entrar sabe-se lá como. Quem sofre mais são os que pegam ônibus numa linha em que existe mais paradas do que passageiros. Para piorar, há casos de pessoas que pegam esse tipo de linha e do inicio ao fim dela, a conseqüência desse fato macabro é o numero exagerado de freadas. Sim, elas são responsáveis por 70% dos hematomas dentre os 100% dos cidadãos que usam o ônibus diariamente.

Acredito que muitas pessoas sentem-se vencedoras, campeãs. Sair de um ônibus lotado, vivo, por mais que haja dores por todo o corpo e com a camisa rasgada e a gravata amassada, é uma sensação de alegria, prazer. Como se fosse um gol de fora da área, quando o jogo estava 1x1 aos 46 do segundo tempo na final da Libertadores da América. É saudável.

É dever do cidadão participativo, que vota, que tem seus direitos e deveres, pegar um ônibus lotado, nem que seja uma única vez. Qual é a graça de termos sempre veículos de tamanho porte, vazios ou quase? Ônibus lotado é uma arte, é um patrimônio histórico e cultural da humanidade e por mais que a maioria não queira, esta mesma maioria é que faz os ônibus lotarem.

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